Ontem fotografei, pela primeira vez desde que me lembro, algo que sendo deste mundo parece do outro...
Estava à espera do autocarro... O asfalto era daquele atracite como o asfalto deve ser... Era um fim de tarde como outro em que o meu guarda-chuva negro não deixa que as pessoas me olhem nos olhos. No passeio, o padrão bordeaux da paragem do autocarro permitia-se alguns reflexos matizados de outras cores à passagem de carros e objectos vários...
Apercebo-me então que no mar não chove. As nuvens estão altas e brancas no alto, muito antes do horizonte... Não que os prédios me permitam um horizonte vasto, mas as nesgas de céu vislumbradas permite-me um azul cristalino de um ar limpo pela chuva, um anil que depressa se encaminha para o violeta com a queda do disco solar. As nuvens brancas reflectem indecentemente os fulgorosos laranjas avermelhados de volta para a terra e o alcatrão deixa de ser tão negro.
As luzes públicas estão já acesas, porém não iluminam nada comparadas com os raios reflectidos de Apolo... olho a rua e, naquela poça de água cujo constante movimento de viaturas não permite estagnar, tsunamis anãs fazem vibrar a electricidade que lhes toca, impedida de as iluminar por aquele laranja que absorve e abarca tudo...
Nesse instante em que me ocupo a abrir o diafragma da minha máquina fotográfica etérea, um camião da carlsberg sobe a rua, vindo do sol... Oferece o seu flanco ao rosto do Astro-Rei e este faz refulgir os seus raios na molhada capa protectora, que deveria ser verde e passa a branca numa fracção de segundo, da caixa de carga.
Aquele prédio, do outro lado da rua, na outra esquina, lembro-me dele vagamente como branco e agora sinto-o quente e pulsante neste fim de tarde...
Todo o som se esvai... Desde o gotejar incessante da chuva ao estridente ruído da água que grita sob os pneus... As outras pessoas, que aparentemente não se aperceberam da eternidade durante a qual o Tempo parou, permaneceram caladas enquanto o ponteiro dos segundos não se moveu no relógio cósmico. O pró

rio vento, indomável, deixou de soprar contra os meus ouvidos, deixando-me num silêncio de um vácuo irreconhecível.
esta foi a minha primeira fotografia de que me lembro... foi tirada ontem quando esperava o autocarro.
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I'm not really here; I'm always moving, so I'm never at the same place. I'm not here; I'm just more likely to be here than anywhere else, but I'm not really here. It's a matter of Physics. _ Charlie Crews
Ovrigada, mistah dragon ^^
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Flickr
"Oh, my life, is changing every day, in every possible way."
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